Homenagem à Grande Mulher Fernanda Angius

PorAlmadaMundo

Homenagem à Grande Mulher Fernanda Angius

HOMENAGEM À NOSSA ESTIMADA ASSOCIADA HONORÁRIA FERNANDA ANGIUS

Queremos perpetuar  a memória da nossa querida amiga, Fernanda Angius. Reconhecer e celebrar uma grande mulher, uma grande professora da Língua Portuguesa, um ser de cultura, de causas, de enorme coração, resistente e crente no potencial humano. Fonte de uma  inesgotável vontade, de uma infinita bondade, distinta referência de solidariedade e fraternidade. 

Livre e incrível, na sua história de vida emocionante, edificante.

Recordo o seu apelo, o seu fio de voz, “vem visitar – me”. Não houve tempo, nem condições, nem como. 

A Fernanda Angius partiu, tal como viveu, dignamente. Tão forte, tão ousada, tão pronta para a viagem. Sempre inteira, no seu modo de viver, de comunicar, de ser parte, com o outro. Recetiva e sonhadora, criativa e inclusiva. Amiga. Presente.

Felizmente, acolhemos e registámos a tempo as suas fantásticas memórias sábias, promissoras, plenas de amor à Vida. 

Partiste e ficaste, bem guardada em nós, minha e nossa irmã no sonho, no sentido da construção de um mundo humanizado, esperançoso.

Permanecerá a tua alegria, ternura, reciprocidade, comunhão, inspiração para buscar caminhos.

Muita luz e muita gratidão. Eterno descanso em paz.

Que a tua força e coragem nos reforce, estimule e ilumine, que seja em nós, Almada Mundo Associação Internacional de Educação, Formação e Inovação Viva. Sempre. 

Abraços Mundo 

Pela Direção da

Almada Mundo Associação

Maria Adelaide Paredes da Silva

 

Camões – Centro Cultural Português em Maputo

Faleceu no dia 20 de Janeiro, no Hospital Santa Maria em Lisboa, Maria Fernanda Dos Reis Ribeiro Angius (Fernanda Angius), Leitora do Camões na Universidade Pedagógica de Maputo, de 1990 até 1997.

Nascida em Lisboa, em 1936, Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Fernanda Angius foi Leitora do Camões em Florença (Itália) e em Harare (Zimbabwe), antes de abraçar funções em Maputo. Participou em diversos projetos relacionados com o ensino da língua portuguesa e com a formação de professores de Português em Moçambique. Paralelamente à sua atividade de funcionária da Emissora Nacional (atual RDP) e docente do ensino secundário, dedicou-se ao estudo dos novos criadores e das novas expressões na literatura africana, com particular realce para a literatura moçambicana. Desde o início da sua carreira como professora e logo ao serviço do ICALP (década de 70), Fernanda Angius dedicou-se de uma forma incansável e apaixonada ao ensino do português e das literaturas em língua portuguesa, tendo acompanhado de perto a afirmação de Mia Couto como prosador e a evolução poética de Eduardo White, entre numerosos outros escritores que se tornaram exímios representantes da literatura moçambicana como, por exemplo, José Craveirinha, Orlando Mendes, Ungulani Ba Ka Khosa, Paulina Chiziane e Virgílio de Lemos. No Centro Cultural Português, juntamente com os colegas Leitores e beneficiando da cumplicidade com José Soares Martins, então Adido Cultural da Embaixada de Portugal, envolveu-se com grande entusiasmo na preparação dos Cursos de Literatura em Língua Portuguesa, realizados com docentes da UP e da UEM, atividade que se tornou cedo um ex-libris do Centro Cultural Português em Maputo. Igualmente assinalável foi o seu desempenho na elaboração de materiais didáticos no INDE-Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação.

Apesar de ter terminado oficialmente a sua missão como Leitora do Camões em 1997, Fernanda Angius manteve a sua relação afetiva com Moçambique e com as letras moçambicanas a partir de Paris e de Viseu, onde passou a exercer outras funções, acompanhando o percurso de jovens escritores que acabaram por se distinguir como afirmadas revelações literárias em Moçambique. Tendo voltado a Maputo em 2015 e 2017, pelas suas oficinas de escrita passaram jovens talentos que seguiriam a afirmar-se na produção literária moçambicana como D. Midó das Dores, Andes Chivangue, Mbate Pedro, Pedro Pereira Lopes, Hirondina Joshua, M. P. Bonde, Japone Arijuane, Mauro Brito, Eduardo Quive, Alex Barga, entre outros, vozes que ficaram marcadas pelo burilar da palavra nos encontros com a Fernanda.

Foi membro da AMOLP-Associação Moçambicana da Língua Portuguesa, onde, entre outros, criou o boletim Português em Cordel. Em 2013, a par de Eugénio Lisboa e Teresa Roza D’Oliveira, formou o primeiro Júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna (foi, aliás, com a Glória que conheceu o mar de Pemba, que deu início a uma longa amizade com a Poeta). Na sua permanência no lar em Lisboa, onde passou a viver nos últimos dois anos, foi dinamizadora do grupo de residentes, tendo promovido sessões sobre cinema, música e literatura.

Por tudo quanto nos deu e nos deixou, Fernanda Angius ficará como um marco distintivo, que nos cumpre honrar, nas boas relações de Portugal e do Camões com Moçambique.

Camões – Centro Cultural Português em Maputo

Dia 20 de janeiro: Há pouco mais de uma hora morria no hospital vítima da Covid a minha muito querida amiga Fernanda Angius. Ela foi uma intelectual no sentido menos pretensioso da palavra. Quer dizer uma pessoa que passava o dia a pensar o mundo, e que pensava o mundo com palavras. Dona de uma mente brilhante, de uma cultura excepcional e acima de tudo de uma capacidade de expressão verbal fora do comum. Quando num evento improvisava uma intervenção nem por isso deixava de seguir todos os preceitos da oratória clássica. Falava com pontos e vírgulas, com parágrafos bem organizados, com uma estrutura que ia à procura de uma conclusão. No segundo que mediava entre ter os lábios fechados e abrir a boca para falar, ela já tinha escrito na mente o rascunho de um discurso perfeito. Com ela morre um mundo. Ou dois. Porque ela foi uma menina criada na boa sociedade Lisboeta de meados do século XX, ainda com decorações e preconceitos muito do século XIX, mas lutou para romper com tudo isso. Tirou um curso, ganhou sempre o seu pão com o suor do seu pensamento. Ela foi uma dessas pessoas que fez do mundo em que vivemos o mundo que é. Em Moçambique, uma das suas três pátrias (junto com Portugal e Itália), sagrou-se na promoção dos autores moçambicanos mais novos. Algumas das melhores horas que passei com ela foi em Maputo, a fazer de escrivão, dado que tinha deslocado um braço, para uma tradução que estava a fazer de um romance de uma autora moçambicana escrito originalmente em italiano. Era emocionante assistir ao desfile de jovens autores moçambicanos que vinham falar com ela. Interrompia-se a tradução. Bebia-se um chá. Falava-se de língua, de literatura, de Moçambique. De coisas queridas. Tinha-se uma sensação de vida dilatada, vida plena. Mas acima de tudo ela era humana, imensamente humana. Por vezes ingenuamente humana. Ela foi muito generosa com o mundo, e o mundo foi muito pouco generoso com ela. Morreu só e com dores por uma doença que lhe transmitiu uma cadeia de pessoas que na sua maior parte (ou então a doença não teria chegado até ela) não conseguiriam somar toda a quantidade de Humanidade que morreu com ela. Desculpem, portanto, que ao tempo que quero manifestar mais uma vez todo o meu amor por ela, queira manifestar também o meu ódio mais azedo pelo mundo.

João Guisan

Fernanda Angius deixou-nos há dois dias. Não quero deixar passar mais tempo sem falar um pouco desta mulher dinâmica e dedicada ao estudo e divulgação das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, especialmente a de Moçambique.

Fernanda nasceu em Lisboa, a 16 de Outubro de 1936, tendo feito a licenciatura em Filologia Românica na universidade da sua cidade natal. Foi assistente de programas literários na Emissora Nacional, de 1965 até 1975, tendo neste ano deixado a Rádio e optado pelo ensino, profissionalizando-se no Ensino Secundário, no então Liceu das Caldas da Rainha. Mais tarde leccionou em liceus de Lisboa. De 1979 a 1984 foi docente do então Instituto de Alta Cultura para o Leitorado de Florença, tendo a seu cargo a disciplina de Língua e Cultura Portuguesa. Em 1986 o ICALP convida-a a trabalhar para a concretização da cooperação cultural de Portugal com a república do Zimbabwe. Neste país é, durante três anos, leitora do ICALP e, em 1988, é contratada pela Universidade local, assumindo a direcção do Departamento de Português na Universidade de Harare. Ainda como leitora nesta universidade africana inicia contactos com escritores moçambicanos, nomeadamente Mia Couto, de quem se torna amiga, admiradora e estudiosa da obra. Cada vez mais interessada em Moçambique, deixa Harare e regressa a Portugal com o objectivo de vir a ser leitora na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Já nesta cidade acabará por ficar com o lugar de 1ª professora de Estudos Literários no Instituto Superior Pedagógico, a cujo quadro de primeiros docentes se junta com a Leitora Madalena Arroja. Em 1997 passa a fazer parte do grupo de especialistas de materiais didácticos no INDE (Instituto para o Desenvolvimento da Educação), colaborando na elaboração de livros e de materiais de ensino. Em 1998 deixa Moçambique e regressa a Portugal, continuando a trabalhar autores da nova literatura moçambicana e passando a ensinar, na Universidade Sénior de Viseu, a disciplina de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Conheci Fernanda Angius quando colaborava nos eventos promovidos pelo Centro de Formação Almada Forma e, mais recentemente, na Associação AlmadaMundo, dirigida pela nossa comum amiga, Adelaide Paredes da Silva.

Bem hajas, Fernanda Angius.

Jorge Arrimar

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